Em vez de você ficar pensando nele

Eu sei que você pensa nele todos os dias. Você pode até tentar fazer ser diferente disso, fingir que não, mas você pensa. É óbvio. Impossível não pensar. Eu também penso, mas tento a todo o momento não destinar minha atenção a ele.

Eu sei que ele mudou sua vida. Chegou sem pedir licença e fez você olhar para o passado e repensar o que antes pensava para seu futuro. Ele é assim mesmo, transforma tudo por onde passa. Ele é o coronavírus e, queira ou não queira, nos faz ficar pensando nele.

Na agência, assim que ele chegou, fomos obrigados a pensar intensamente no que fazer e em como comunicar o que estávamos fazendo. Confesso que, para nós, até que foi surpreendentemente rápido e simples. O trabalho continuou fluindo normalmente — talvez até melhor do que antes — e o volume de negócios felizmente não foi impactado. Diante deste quadro, fica realmente mais fácil não ficar pensando nele. Por outro lado, tivemos que pensar no coronavírus também pelos nossos clientes, e então este inimigo foi pauta de muitos e muitos trabalhos que fizemos, principalmente no início da pandemia e, agora, em quantidade bem menor.

Aparentemente estamos nos acostumando com ele. Não chega a ser uma Síndrome de Estocolmo, porque acredito ser impossível e desumano gostar desta interminável quarentena, mas o fato é que após quatro meses vivendo desta forma, as pessoas estão entendendo que agora é assim, pelo menos por enquanto. É claro que há exceções, que existe a ignorância, que existe a miséria, a negligência e tantas outras ausências, mas tenho a impressão que a teoria de “O poder do hábito” se tornou realidade também neste caso. E não estou dizendo que acho que devemos nos habituar com este problema e muito menos nos acomodar. Até porque os desafios são muito distintos de pessoa para pessoa, de empresa para empresa. Temos clientes que cresceram na pandemia. Também temos clientes que foram sensivelmente afetados. E isso tudo depende de inúmeros fatores. Por isso é tão difícil julgar quem quer que seja. Não dá pra saber o que está se passando na vida do outro.

E por falar em vida, quantas vidas estão em jogo. Quantas pessoas tendo que enfrentar esta batalha. Cada dia mais. Ficamos sabendo de vitórias, mas também de derrotas. E os casos — independente do resultado — se aproximam cada vez mais de nós. Antes ouvíamos números, o que parecia distante. Agora ficamos sabendo de nomes, o que torna tudo mais próximo. Nestes casos, não dá pra não pensar nele. Só não podemos ficar olhando apenas para ele. O importante é se proteger, compartilhar boas práticas, usar o bom senso e olhar pra frente.

Problemas sempre existiram. Sempre existirão. De todos os tamanhos e espectros. E sempre podem trazer grandes aprendizados.

Embora eu ainda não tenha nem meio século de vida, meus insistentes cabelos brancos laterais me deixam menos constrangido em me sentir na condição de dar um conselho: seja qual for o problema que surja na sua vida, em vez de você ficar pensando nele, em vez de você viver chorando por ele… tente não pensar. Foque no que te faz bem. Você vai superar de forma muito mais leve — e com a sensação de ter sido mais rápida — do que se ficar focado nele. Não é autoajuda, é conselho de amigo. Pra mim funciona na maior parte das vezes. Acho que pode funcionar pra você também.

 

FOTOGRAFIA DE VALENTIN B. KREMER (Editada para B&W)
Ivan Malusá Romanini
Ivan Malusá Romanini
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