Minha mãe é fogo

Depois de algumas semanas de trabalho intenso envolvendo peças e campanhas de Dia das Mães para diversos clientes, decidi que era hora de usar as palavras para homenagear também a minha mãe, Eliana Malusá, por muitos carinhosamente chamada de Tia Li.

Sabe aquele tipo de pessoa que faz amizade com outras pessoas na fila do banco? Esse é o tipo dela. Adora conversar, dar boas risadas e está sempre disponível pra dar uma mão a quem precisa. Existe alguém que não goste dela? É até possível, mas eu desconheço.

Capricorniana teimosa, ela tem uma solução para praticamente tudo. É uma espécie de MacGyver-mulher. E quando ela não consegue dar um jeito, ela conhece alguém que dê (o que é tão importante quanto).

Impulsionada pelo seu talento natural para resolver coisas, minha mãe sempre trabalhou muito e me orgulho demais dessa independência que ela sempre buscou ter. Ela e meu pai se separaram quando eu tinha quatro anos de idade e ela nunca deixou a peteca cair. Para minha sorte, eles conduziram muito bem toda a situação. Houve momentos mais apertados e outros um pouco mais tranquilos, mas – como eu disse anteriormente – ela sempre deu um jeito.

Uma cena que nós dois nunca nos esquecemos foi quando – depois de a nossa única e velha televisão já incolor chegar a um estado impraticável – num sábado de manhã ela comprou uma TV nova e, ao ligarmos, imediatamente apareceu a Xuxa dizendo “tá vendo tudo colorido aí? Tem cor aí na sua casa?”. Nós nos entreolhamos e caímos na risada. Parecia inteligência artificial em plena década de 90.

Foi minha mãe quem me levou para assistir ao primeiro show “de adulto” da minha vida, lá pelos meus doze anos de idade: no palco estava o Roupa Nova, com seus incontáveis sucessos, todos desconhecidos por mim até então. Ela me levou também para assistir a um dos shows mais legais da minha vida, o “Vamo Batê Lata”, dos Paralamas do Sucesso. Neste show, me lembro bem, ela se cansou de ficar no meio da galera e foi descansar no banheiro do clube. Na época ela tinha exatamente a mesma idade que tenho hoje e acho muito maluco pensar que aos trinta e sete anos ela já tinha um filho de treze (minha filha mais velha tem apenas três). E saber que ela topava levar aquele pivete e seus amigos no show. Sou muito grato por isso. Ali nasceu em mim um sentimento especial pela música.

Esse jeito descomplicado de ser tem diversas vertentes. Uma delas é o bom humor. Numa tarde entediante de sábado, coisa de uns 22 anos atrás, estávamos nós dois em casa quando ela me disse: “vamos passar um trote em algum amigo seu?”. Olha só a ideia dela! Nós escolhemos o Leandro Marconi como vítima. Nosso objetivo foi gerar um constrangimento nele pois eu disse que minha mãe queria ir no clube mas que eu estava com preguiça, e então perguntei se ele toparia fazer companhia para ela, mesmo sem mim. O constrangimento chegou e as gargalhadas (dos três) também.

Por falar nos meus amigos, minha mãe se dá tão bem com eles quanto eu. Tanto é verdade que teve um final de semana em que eu estava viajando e, no final da madrugada, pós-balada, três desses amigos tiveram problemas com o carro e eles ligaram para quem? Para minha mãe. Eles tomaram café da manhã na casa de quem? Da minha mãe. E eles descansaram na casa de quem? Da minha mãe. E eu nem lá estava. É generosidade até demais.

Dona Eliana é o ser mais adaptável que eu conheço. Tem assunto com todo tipo de gente. Consegue estar bem em ambientes dos mais simples aos mais sofisticados. Talvez por isso tenha tanta facilidade para mudar de endereço. Eu literalmente já perdi as contas de quantas mudanças ela já fez. Para se ter uma ideia, em um único prédio já moramos em três apartamentos diferentes. Um deles tem uma história peculiar que envolve minha mãe. Ela incendiou meu quarto (sem querer, claro) ao tentar tirar a cola dos tacos com thinner ou álcool. Um fio desencapado gerou uma faísca e aí o bicho pegou. Duas curiosidades: (1) sortudos que somos, o vizinho do apartamento da frente trabalhava no Resgate do Corpo de Bombeiros. (2) Eu estava na casa do meu pai e fiquei sabendo do incêndio que ocorreu no meu quarto pelo jornal e somente na manhã do dia seguinte (minha mãe não queria me contar por telefone). Dá pra imaginar o susto?

Mãe, essas passagens que escrevi aqui são muito pouco perto de tudo o que já vivemos juntos. Mesmo com seu jeito tão prático, você sempre foi extremamente carinhosa e cuidadosa comigo. Nunca vou me esquecer de você me acordando com delicadeza para me levar para a escola. Do suco gelado de abacaxi que você preparava depois do treino de basquete. Do feijão com farinha de milho que você fez no dia em que ralei o queixo tentando andar de skate. De você resgatando meu violão de um cachaceiro na rua. Do dia em que sentimos um cheiro maravilhoso de bife à milanesa na esquina perto de casa. Das caronas. Dos conselhos. Das viagens. Dos nossos segredos. Das nossas risadas. Das nossas lágrimas.

Você sempre me permitiu ser quem eu sou. Este é um dos maiores presentes que uma pessoa pode receber. Eu te agradeço por você ser quem você é. Exatamente do seu jeito. Obrigado por tudo o que você fez e faz por mim e pela família que formei.

Te respeito. Te admiro.

Te amo.

Ivan Malusá Romanini
Ivan Malusá Romanini
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