O exterminador do empreendedorismo

26/02/2019

Naquela noite, encostei a cabeça no travesseiro e fiquei pensando: será que eu estava certo? Será que eu deveria ter sido tão racional assim? Teria sido eu um destruidor de sonhos?

Era fim de 2016, começo de 2017. Estávamos todos na praia — minha família, mais tios, primos e as crianças —, sol, cerveja e aquela animação toda por um ano que se inicia. Inevitavelmente surgiu um assunto que, particularmente, gosto muito: negócios. Todos ali se conheciam, então a conversa não era tanto no plano do “o que eu faço”, era muito mais no do “como eu faço” e “o que estou pensando em fazer”.

Com seus 33 anos à época, um deles comentou que adorava comer omelete depois de praticar atividades físicas (ele também adora esportes e se divide entre musculação, futebol e judô). Disse que, além de comer, gostava muito de preparar omeletes e que estava começando a pensar em abrir uma omeleteria perto do clube onde joga futebol. Achei interessante e fiquei um pouco surpreso pelo fato de ele estar com um plano desses em mente. Afinal, por que alguém que é tão bem sucedido nas suas carreiras (ele é advogado e contador, tem MBA em Gestão e é sócio de uma das principais empresas do segmento na região) consideraria dedicar parte do seu tempo, energia e recursos em uma omeleteria?

A conversa avançou. Alguns falavam sobre as combinações que ele poderia fazer: de ricota com tomate e manjericão à mussarela, milho, bacon e catupiry. Outros falavam sobre o negócio em si: investimento em equipamentos, valor do aluguel, energia, impostos, custos com pessoal, encargos, marketing, horários de trabalho, margem de lucro, público-alvo etc. Embora eu também tenha pensado em algumas receitas saborosas, concentrei meus pensamentos mais nas receitas mensais. Em poucos minutos dei o parecer da minha consultoria etílico-praiana: não vale a pena o sacrifício.

Todo parecer precisa de um embasamento e o meu, naquele momento, era alicerçado nos seguintes pilares:

  • as contas não fechariam;
  • ele teria que estar presente em horários nos quais poderia estar com sua família (depois do expediente normal);
  • ele poderia usar toda aquela energia para gerar ainda mais resultados para um negócio que ele já tinha e que, embora estivesse muito bem (e continua), teria potencial para crescer ainda mais;
  • ele amava suas profissões e o seu trabalho;
  • uma coisa é gostar de fazer omeletes, outra coisa é trabalhar no segmento de alimentação;
  • ele precisaria avaliar se ele gostava tanto de omeletes a ponto de trabalhar com isso todos os dias;
  • ele tinha (e ainda tem) a opção de fazer omeletes por prazer, não por obrigação, somente quando tivesse vontade. Em casa, para a família, para os amigos e para quem mais quisesse.

Mesmo tendo dito tudo isso, o tom da conversa não era de uma imposição de opinião. Isso nunca fez meu gênero. Foi realmente um bate papo bem leve e agradável que tivemos. Papo este que me marcou bastante porque, em diversos momentos desses dois anos que se passaram, essa história me voltava à memória e eu ficava com aquela pulga atrás da orelha: sou um exterminador do empreendedorismo? Um matador de omeletes? Realmente aquilo, por vezes, me incomodou um pouco, de alguma forma.

No último sábado tivemos um encontro de família. Ainda mais tios, primos e crianças. Não tinha a areia da praia, mas tinha cerveja e a tradicional animação dessas reuniões. Não teve jeito, em determinado momento formou-se uma rodinha e estávamos falando de negócios, desta vez com ênfase em tecnologia. Os primos dos 25-30 anos dando uma verdadeira aula para nós, os velhotes de 35-40. De repente, aquele primo do omelete diz:

“Ivan, não sei se você se lembra, mas teve um dia na praia que você falou uma coisa que me marcou muito. Que eu deveria me concentrar no meu negócio porque eu ainda tinha muito para crescer. Pra eu não desviar meu foco. Foi o que eu fiz e você estava certo. Depois até li um texto que falava coisas nesse sentido e eu gostei tanto que imprimi e colei na porta do meu banheiro para poder ler sempre”.

Aquele relato me deixou um pouco mais tranquilo. Me senti mais leve. Comentei com ele que nossa conversa de dois anos atrás também havia me marcado bastante; que eu havia ficado com um grande ponto de interrogação me perseguindo. E eu disse que fiquei muito feliz por saber que a conversa tinha sido útil para ele também.

Brindamos e fomos cuidar das nossas filhas.

Mas ainda me pergunto: como teria sido se ele tivesse montado a omeleteria?

Ivan Malusá Romanini

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